
Ela desabotoa os botões de cima de sua camisa puxando-a para abanar, enquanto se assoprava olhando nos olhos do doutor.
Terapeuta: Certo… pode prosseguir.
Ele se levantou e ficou mais próximo em direção a porta tentando ser o mais discreto possível. Sarah não demonstrou muito interesse pois estava perdida em seus pensamentos, mesmo desinteressada, ela não tirava os olhos dele.
Sarah: Foi então que olhei pro lado e vi no box no banheiro algumas marcas vermelhas. Quando cheguei mais perto, vi que estavam secas como se fosse alguma tinta, mas o cheiro era realmente forte, e nada parecido com o cheiro químico de tintas. Era um cheiro de podre. Decidi abrir o box pra ver, mas não tinha nada dentro. Dei de ombros e fui saindo do banheiro. Surgiu um pensamento: “não se preocupe, limpamos pra você”. Era quase como uma voz. Porque está na porta doutor?
Terapeuta: Ah.. Só estou alongando um pouco as pernas, eu… sabe como é a idade mais avançada certo?
Ele deu um riso desconcertado mascarando em nada seu nervosismo.
Sarah: Certo (risos). Meus pais também se queixavam sobre isso.
O terapeuta nitidamente expressa medo em seu rosto.
Sarah: Depois disso, eu fiquei a tarde tranquila até quase o meio da noite. Pensei que talvez não tivesse sido tão ruim. Decidi me conformar com o que ocorrera. Afinal, eu tinha terminado oficialmente a faculdade, nunca mais veria aquelas pessoas novamente, pelo menos a maioria delas, então não tinha porque me remoer, nada de ruim aconteceu.
Isso até as 23 horas daquele dia.
Tocaram a campanhia de casa. Me levantei da cama um tanto preocupada. Já que era tarde da noite. Vesti uma calça e fui atender. Era a polícia. Pediram pra eu acompanhar eles para a delegacia, pois havia acontecido algumas coisas nas noites de sábado e domingo e precisavam do meu testemunho pra ajudar no caso. Fiquei completamente perdida. Tentei explicar que nessas noites eu estava na festa de formatura, e que não teria como eu estar envolvida mesmo que de testemunha de crime algum.
Na minha cabeça, comecei a ouvir aos poucos risos. Não qualquer risos. Os risos daquela noite, foram aumentando aos poucos. Não me lembro o que aconteceu depois. Parando pra pensar nisso, parece que ouço os mesmo sons. Os risos, se fecho os olhos…
Terapeuta: Certo já é o bastante.
Sarah num movimento quase sobre-humano vai na direção do terapeuta, com gestos bem sensuais ela abraça a mão dele comprimindo entre os seios.
Sarah: Não saia, fique comigo… podemos aproveitar o momento. Sempre tive muita tesão por psiquiatras, sabia doutor.
Ela puxa a blusa mostrando os seios pro medico.
Ele tenta se livrar das mãos dela, tirando o braço com todo o cuidado possível sem provocá-la de maneira alguma.
Terapeuta: Minha cara, é antiprofissional esse tipo de relacionamento, eh.. bem.. a ética me é uma grande virtude… deixe-me ir checar somente uma coisa.
Sarah olha com um olhar selvagem escondendo atrás desses mesmo olhos oblíquos uma sede não natural.
Sarah: Você não me disse seu nome doutor. (ela chega bem perto do pescoço dele e respira suavemente fazendo ele se arrepiar; em resposta a reação do médico, ela sorri.) Venha, não seja mal comigo, fui boa pra você até agora. É minha vez de tratar bem do senhor.
O terapeuta não vendo mais o que fazer, e completamente encurralado, empurra ela contra a poltrona e num movimento tão rápido quanto desesperado abre a porta e sai da sala.
Assim que a porta fecha em suas costas, ele escuta um estrondo, seguido de um grito extremamente alto e agudo, e na sequência, uma gargalhada completamente diabólica.
Surge uma equipe composta de dois guardas e uma médica.
Médica: O senhor está bem? Ela o feriu?
Terapeuta: Não… graças a Deus não. Eu só preciso… preciso respirar um pouco…
Médica: Certo, acalme-se. Vamos pra minha sala. Por favor vigie a porta e em hipótese alguma abram-na.
Eles saem do local e caminham para um escritório .
Médica: Alguma novidade?
Terapeuta: Absolutamente nenhuma. Exatamente como o prognóstico anterior que vocês me passaram. A paciente conta uma história sobre problemas com ansiedade e pânico de palco, seguida de alguma amiga que diferente do anterior, dessa vez foi o primo dela que passou o tal site. Dai em diante ela segue para o surto de esquizofrenia por conta do contato com o medo de palco, a alegação de não se lembrar do ocorrido nas noites da formatura onde o crime do assassinato de 25 dos formandos em algum tipo de ritual naquela noite e em seguida o assassinato de um policial na noite seguinte a formatura.
Após isso, assim como descrito, a paciente tentou me aliciar e perguntou o meu nome.
Sendo sincera doutora, eu não saberia descrever um quadro que ela se encaixe dentro das doenças já tratadas na psiquiatria.
Médica: Isso porque até aqui não há. Ela assassinou brutalmente os psiquiatras anterios a você. Ela aliciava, perguntava o nome, tinha relações com eles e então os matava, assim como ela fez com todas as vítimas até então. O único que sobreviveu foi um dos policiais que ao ver o parceiro tendo a garganta aberta a dentadas, correu e conseguiu tomar seu taser e atirar. E isso não foi o suficiente pra deixá-la incapacitada por completo. Ele teve de algemá-la por ela ainda apresentava uma recuperação muito acelerada. Sem contar que a ligações entre o assassinato dos pais dela antes da formatura com as vitimas desse massacre.
Terapeuta: Vocês chegaram a pesquisar sobre esse tal site?
Médica: Certamente. De tudo o que ela conta, entre as variações das histórias, apenas 4 pontos coincidem: O site, a forma de entrar, o fato de ela ter divulgado entre pessoas na faculdade e ela afirmar ter entrado nele às três da madrugada. Por isso averiguamos o site mas nada se encontra. Mesmo seguindo o que ela disse sobre os 7 dias, contando a partir do dia que ela disse, e mesmo entrando no horário que ela informa, não da pra encontrar absolutamente nada. Conversamos com alguns dos formandos também. Todos diziam que ela não era próxima de ninguém, mal a viam na faculdade fora das aulas, mas que certa noite ela veio até um pequeno grupo pedir ajuda com o problema que ela cita; os alunos disseram que ninguém citou nada sobre o tal site, além dela mesmo. E disse que tinha de ver como entrar. Mas é toda a informação que temos.
Os vizinhos dos pais dela disseram ter ouvido uma discussão umas semanas antes do incidente, mas ninguém sabe ao certo. Aparentemente a filha não se relacionava com os pais há uns meses.
Terapeuta: Que situação perturbadora… não me entenda mal doutora, mas não acho que seja uma simples esquizofrenia ou qualquer outro tipo de acesso. A paciente que eu atendi no começo, não tinha nada em comum com aquele ser que me fez fugir da sala. Sou especialista em psiquiatria e analista de microexpressões faciais e linguagem corporal. Posso afirmar com propriedade que atendi duas pessoas completamente diferentes naquela sala.
Médica: Eu… posso entender. Mas isso não prova nada, e o que o juiz quer é um laudo. Já fazem 3 meses que ela está sendo tratada, e tivemos de mudar pra cá desde a última vez que ela quase quebrou a porta com as mãos nuas. Isso com certeza vai além das propriedades médicas normais.
Terapeuta: Que situação assombrosa. Mesmo com os medicamentos que vocês tem aplicado a ela, a situação não parece diferenciar em nada do laudo anterior. O que vai…
Uma sirene começa a tocar e se escuta barulhos de passos fora do escritório. A médica rapidamente tranca a porta e segurando a mão do médico se encaminha para o fundo do escritório.
Terapeuta: O que é isso? O que está acontecendo?
Se escuta barulho de disparos e gritos tanto masculinos quanto femininos vindo de fora da porta, seguido de um grande silêncio.
Médica: Fique em silêncio, estamos bem aqui.
O silêncio persiste. A ponto de conseguirem ouvir o coração e a respiração um do outro. A médica faz um sinal pra ele se abaixar e esconder de trás da mesa. Eles estavam pálidos, não havia força em nenhum deles para manter a postura.
Repentinamente um estrondo altíssimo surge e a porta é derrubada. Os médicos escondidos atrás da mesa, lutam para se manter em total silêncio. Ouvindo passos lentos se aproximando da mesa. Uma respiração pesada, mas ritmada.
Escutam o ranger da madeira, como se algo estivesse subindo sobre a mesa. O doutor olha para a médica, ela segurando a respiração esta aos prantos, lutando com todas as forças pelo silêncio.
Uma voz diferente de qualquer outra vós que já haviam escutado fala:
__ …Vamos… eu só tenho seis minutos…