Regressivo Part.1

Terapeuta: Bem, creio que podemos começar a sessão senhorita ah, Sarah, certo?

Sarah: Isso, podemos é claro.

Terapeuta: Bom ah… aqui diz que sou o terceiro psiquiatra que a senhorita procura, isso está certo mesmo?

Sarah: Eh, sim. Sim é isso mesmo. Bem… Se possível poderia falar sobre isso mais a frente? Não é algo que me sinta à vontade no momento pra tratar.

Terapeuta: Certamente. Pois bem, por onde quer começar?

Sarah: A algum tempo atrás ocorreu um certo episódio comigo, que não tem me deixado dormir em paz desde então. Bom, se o sono fosse o único problema não teria ido tan… aqui.

Terapeuta: Certo, do que se trata exatamente esse… episódio ocorrido?

Sarah: Ah.. eu sempre tive medo de falar em público, acho que como muitas outras pessoas, não era nada de excepcional ou grave, só aquela timidez e uma ansiedade de pensar em falar em público. Mas na vida de um adulto autônomo não se pode esperar uma escolha tão.. confortável? Acho que diria assim.

E esse dia fatídico chegou pra mim também. Não era nada realmente impactante. Eu estava me formando na faculdade de direito e como fui a melhor aluna, pediram que eu fizesse o discurso de formatura. O problema é que havia mais de 4 classes se formando junto da minha. Então era esperado que o auditório da universidade estivesse lotado. E pronto… dizer “não”, não seria a melhor opção. Ou talvez eu só tivesse medo demais pra questionar…

Terapeuta: Como você mesma disse, não é incomum esse medo de palco. Muitas pessoas tem dificuldade de falar em público. Existem alguns exercícios que poderiam ser ministrados pra tratar aos poucos esse problema.

Sarah: Ah… sim… sim eu cheguei a ver algumas coisas sobre. Desde falar sem olhar para o público diretamente, até falar nua na frente do espelho, mas, não me ajudava em nada.

O discurso eu tirei de letra. Nunca tive dificuldade em escrever, mas conforme passavam as semanas, minhas crises de ansiedade foram aumentando cada vez mais. Comecei a ter insônia, perdi o apetite, às vezes ficava minutos com a chave colocada na fechadura pra entrar no meu apartamento, eu simplesmente estava ficando fora de mim.

Terapeuta: Você chegou a procurar por ajuda?

Sarah: Na época não a profissional, mas, falei com meus pais e amigos sobre o que estava acontecendo. Eles me ajudaram no que era possível. Mas a cada dia que passava mais perto ficava o dia da formatura e mais eu me sentia exausta. 

 Tudo isso foi horrivel de fato, mas, o meu problema atual começou quando recebi um certo… conselho.

 Conversando sobre minha situação com alguns colegas na faculdade, uma amiga me disse sobre a história de um primo dela. Disse que ele já tinha passado por uma depressão ainda na adolescência, e como ele ficou introvertido quando mais velho. Até aí eu só escutei sem falar muito. Então ela me mostrou o discurso de formatura que esse mesmo primo dela apresentou. Sem exagero, todos que estavam ali quase foram às lágrimas com o discurso. 

Eu aprendi sobre oratória e afins, mas, nunca vi alguém falar daquela forma… era como se ele… fosse tomado… o discurso dele tocou a todos.

Terapeuta: Impressionante. Se essa pessoa realmente passou por isso, ele é um exemplo excepcional de recuperação.

Sarah: Bem… ele não superou… Fiquei sabendo depois do que me ocorreu, que esse primo da minha amiga se suicidou…

Terapeuta: Que trágico… 

Sarah: De fato… 

Houve um pequeno silêncio constrangedor, Sarah esfregava as mãos, e de repente decidiu prosseguir. 

Sarah: Enfim… com todos boquiabertos com o tal discurso, perguntei o que ele havia feito pra falar daquela maneira em público. Foi aí que tudo se deu início. Se não tivesse ido atrás disso… capaz que…

Ela disse… me passou um tal site… disse que o primo procurou ajuda de “especialistas”. Disse que um colega dele passou o site pra ajudar no problema. O nome que se procurava era Os Versados. Até ali era só uma dica útil, um site como qualquer outro eu pensei. Daí começaram as estranhezas. Ela me disse que o site abria uma vez a cada sete dias, por somente seis minutos, no site havia cinco opções apenas, pra acessar você precisava escrever quatro palavras,  apareciam três opções e você escolhia duas então o site fechava.

De início todos nós da roda levamos na brincadeira. Não parecia algo realmente serio.

Voltamos às atividades normais até pouco antes da hora de ir embora. Essa mesma amiga veio e me deu um papel com as palavras: Adesto auxilio X. solvit.

Ela disse que no lugar do X eu deveria colocar meu nome, e que havia acabado de perguntar pro primo dela quando o site abriria. E por ironia do destino ou algo assim, seria dois dias depois daquele.

Terapeuta: Isso tudo é um tanto “misterioso” não acha?

Sarah: Queria que tudo seguisse nesse mistério… Agora eu sei que tem certas coisas que é melhor não sabermos…

Mais um dia passou e eu, completamente tomada pela ansiedade não sabia o que fazer. A formatura seria na semana seguinte. Já havíamos tirado as fotos e tudo o mais. Naquele dia minha ansiedade avançou mais um nível. Comecei a ter enjoo e até disenteria. Tive uma crise tão profunda que me fez evitar de chegar perto da janela do meu apartamento. Eu moro no quinto andar, e não sei porque mais tive esse medo de de repente eu me jogar ou algo assim… Já estava fora de controle antes, mas agora… estava em um outro patamar…

Era por volta das 2 horas da madrugada, e meus olhos pareciam secar por causa da insônia. Peguei meu celular pra tentar me distrair um pouco. Foi quando notei o papel que tinha recebido da minha amiga no meu criado. Só depois eu percebi que nunca tirei ele da bolsa. No verso do papel estava um horário marcado. Não tinha reparado nisso antes. Estava marcado 3:33 minutos. faltava pouco pra esse horário então decidi pesquisar sobre esse tal de Os Versados. Ver se algum tinha tido experiência com eles, ou mesmo que por cima, saber do que se tratava. 

De imediato, não achei absolutamente nada nas primeiras 15 páginas de pesquisa… Com a intenção de achar alguma coisa, fui avançando as páginas pouco a pouco. Estava sem sono e não tinha absolutamente nada pra fazer aquela hora da madrugada. 

Quando cheguei na página trinta e três achei um único assunto relativo ao nome da pesquisa. Era uma página de ocultismo aparentemente, que falava sobre uma lenda antiga sobre seres muito vividos, que em sua grandeza faziam favores aos que pagassem o que lhes interessasse. 

Terapeuta: Não esperaria nada de muito diferente de uma página assim. (ele esboça um sorriso esperando uma recíproca, que o deixa constrangido vendo a feição de medo na face de Sarah).

Sarah: Eu.. bem… não acreditei muito. Nunca fui nem religiosa nem supersticiosa. Talvez eu devesse ter aprendido mais sobre isso… Só nunca quis pensar em nada que fosse além da minha razão…

Decidi entrar no tal site. Mas não importava o que eu colocasse depois do ponto no link, não encontrava o tal site.

Olhei no relógio do computador e era 3:32.

Escrevi na pesquisa do google novamente “Os Versados”. Esperei dar exatamente 3:33, e então pesquisei.

Pro meu espanto, o tal site apareceu. Ele não tinha terminação, me refiro ao ponto com ou ponto org ou qualquer outra coisa. Era somente o nome.

Cliquei no site. E como minha amiga me falou, assim estava lá também.

Havia ali cinco ícones e um deles era um relógio marcando em contagem regressiva 6 minutos. As opções… eu não consigo me lembrar, é como se tudo tivesse fugindo da minha mente. Lembro que escolhi uma e começou a tocar uma música. Eram sons de tambores e algum instrumento de corda. Tudo é confuso quando tento descrever o assunto. Então abriu uma caixa de texto com limite de exatamente caracteres. Coloquei as palavras e substituí o X como ela havia me ensinado: Adesto auxilio Sarah solvit.

Lembro que fez uma animação como se as palavras fossem consumidas por fogo. E entrou uma voz cantando junto ao som da música no fundo. 

Surgiu então as três opções para escolher. Essa parte, ao contrário do resto, eu não consigo esquecer. Às vezes quando fecho os olhos, vejo as palavras como se estivesse escolhendo exatamente agora. Corpo, Mente e Espírito. Eram as três. Escolhi duas que foram: mente e corpo. O site então encerrou todos os ícones menos o relógio que continuava marcando a contagem regressiva. Um texto apareceu na tela: Ouvimos sua súplica. Tomamos seu pagamento. O pequeno serviço por seis minutos de tormento.

Quando a mensagem saiu, vi meu rosto no reflexo do monitor. Mas desfigurado. Com um sorriso perturbador. Antes mesmo de dar tempo de eu reagir. O meu computador desligou. Pensei em ligar novamente ele, mas do nada um sono surgiu repentinamente. Lembro-me de virar em direção a cama, e ainda ouvindo sons de tambores batendo, me deitei e dormi instantaneamente.

Na manhã seguinte acordei como que renovada, cheia de vida. Não me sentia bem daquela forma a muito tempo. Mal me lembrava do que aconteceu na noite passada. A vida seguiu normal até o dia da apresentação. Foi como se nada tivesse acontecido, mas minha ansiedade sumiu. Como se nunca tivesse tido outrora o mesmo problema.

Terapeuta: Certo, em decorrência a isso começaram os surtos correto? 

 O terapeuta se ajeitou na cadeira, apresentando um certo desconforto.

Sarah: … … Foi.

 Sarah ficou fitando as paredes brancas da sala, pensativa sobre esse adiantamento da história. Depois de alguns minutos ela tomou novamente a linha da história.

Sarah: Na noite da formatura, faltavam poucos minutos pra eu discursar. De repente ouvi os sons de tambores aumentando aos poucos. Como de uma vez, fui tomada pela memória daquela noite. A página de escolha, e a resposta que recebi: …o pequeno serviço por seis minutos de tormento… 

Minha visão começou a ficar… avermelhada. A música agora estava na minha mente. Como se eu tivesse com fones… talvez mais profundo que isso. Então ouvi me chamarem.

Meu corpo não me respondeu. Lembro-me de olhar pro lado onde havia um pequeno espelho. Meu rosto, era pra estar apresentando uma clara nítida de espanto, mas, o que eu vi foi um sorriso de autoconfiança que nunca me vi sorrir na vida. Meu corpo começou a andar. Assim que sai da cortina o que vi foram centenas… talvez milhares ao menos na minha visão, de sorrisos de zombaria. Sentia meu coração disparar.

Todos riam. Todos escarneciam. Onde olhava eu via aquelas bocarras, cheias de dentes. Risadas tão altas. E os tambores. Eu queria correr. Gritar. Sumir. Tive tantas vontades. Os risos e gritos ficavam cada vez mais altos. Todos me olhando daquela forma. Eu queria a morte. Nunca me senti tão desesperada na vida. Lembro-me de essa agonia ser tão grande que fui perdendo a consciência aos poucos, até desmaiar. Sinto que até inconsciente eu ouvia e via na minha mente aquelas risadas.

Terapeuta: Você está bem? Quer parar por hoje? Sabemos bem que sua situação é difícil Sarah. Se preferir podemos seguir outro dia deste mesmo ponto.

Sarah ficou pensativa e tentando entender o que ele quis dizer com sabemos. Recobrando um pouco o estado ela meneou a cabeça num sinal de que estava bem. Aos poucos ela foi se sentando de forma mais chamativa e cada vez que ela seguia a história, sua feição se tornava mais quente.

Olhando para o terapeuta, era nítido que estava assustado com a situação.

Terapeuta: Certo… não… não se force demais ok? 

Sarah:ah.. ce.. certo. Depois daquilo eu acordei em casa. Não entendi o que aconteceu, mas achei que alguém tinha me levado pra casa depois de eu desmaiar no palco. Meu celular vibrou e pensei ser alguém perguntando sobre meu estado ou algo assim.

Pra minha surpresa era meu grupo da faculdade, e as mais de duzentas mensagens era sobre como eu fui além das expectativas na noite passada. Pro meu espanto, eu tinha discursado com excelência e levado a plateia aos prantos com minhas palavras. Todos foram tocados e revigorados pelo discurso que eu aparentemente fiz. No começo achei que fosse piada. Mas então eles mandaram um pedaço do discurso.

Eu… não sabia o que dizer… eu mesma fiquei emocionada com o pequeno corte do discurso que eles mandaram. Mas o que mais me causou foi medo. O que, ou melhor, como eu falei aquilo? 

Então continuei com mais afinco lendo as mensagens e o que seguiu ali foi completamente impossível pra mim. Havia vídeos meus dançando, ficando com pessoas na festa. Era sem dúvidas meu corpo, mas parecia uma pessoa totalmente diferente. Eu sempre fui introvertida e tímida. Sempre tive dificuldades de me associar a pessoas, quanto mais sair pegando gente aleatória em uma formatura dividida entre turmas. Foi quando o susto realmente aconteceu.

Aqueles vídeos e postagens eram dos últimos três dias. Havia se passado toda a festa de formatura. 

As pessoas da turma estavam quase me idolatrando.  Com lisonjas e afins.

Meu facebook tinha mensagens de pessoas que eu nunca vira antes, e outras que eu já vi mas nunca tive contato. As conversas iam de simples cumprimentos, até comentários sexuais. Eu entrei em choque.

Levantei da cama completamente apavorada. Fui pro banheiro lavar o rosto pra ver se eu entendia o que estava acontecendo. Olhei no espelho e como de repente na minha mente surge a mesma imagem do site. “Corpo e mente”. Arregalei meus olhos e senti um arrepio na coluna, não um normal. Parecia uma agulha injetando gelo em cada um dos discos da coluna… Não esta mais quente aqui?